2008 Janeiro 24 - A indústria e os cenários energéticos brasileiros
O Brasil enfrenta novamente o risco concreto de um apagão energético, o que pode influenciar decisivamente no ritmo de crescimento. Parece que não aprendemos a lição com a crise de 2001 e - apesar da iminente restrição da oferta de energia elétrica e de gás natural - o governo continua, desde a década de 90, com uma postura apática e reativa.
O cenário energético nacional nos faz lembrar a maldosa experiência do sapo numa panela sobre o fogo. O sapo é mergulhado na água fria sobre a chama do fogão e não reage ao aumento da temperatura, a ponto de morrer em silêncio.
Há vários anos observamos os governos no papel do “sapo”, especialmente depois do abandono do planejamento setorial de longo prazo. Apesar dos fortes indícios, o governo federal tem afirmado que não há risco de falta de energia, tampouco de racionamento. Entende-se esta postura do governo, pois a aceitação da existência deste risco no discurso oficial implicaria desestimular o investimento produtivo em todos os setores. Mas, muito além do discurso, precisamos adotar medidas concretas para evitar uma nova crise.
O País decidiu investir na geração térmica por ser mais atrativa economicamente e mais confiável do que as fontes alternativas. Ocorre, porém, que nosso principal energético termelétrico - o gás natural - também está em falta. Após tentativas de privatização do setor elétrico e da implantação de novos modelos de gestão, estamos caminhando para uma crise de escassez de energia.
A indústria tem contribuído para evitar um novo apagão, com os bons resultados alcançados com programas de conservação de energia. Ademais, as entidades empresariais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), têm trabalhado na conscientização dos empresários sobre a necessidade de avançar mais rapidamente nos processos de eficiência energética.
Para colaborar com o tema, a Federação das Indústrias do Paraná e o Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP publicaram o estudo “Cenários Energéticos Globais 2020″, que analisa o processo de mudança da política energética mundial. Uma versão eletrônica está disponível no site www.fiepr.org.br/observatorios. Reivindicamos para a indústria uma maior participação na autoprodução de energia elétrica, uma vez que somos importante agente nessa cadeia produtiva, seja como o maior consumidor ou como fornecedor de equipamentos e materiais. Nesse sentido, os esforços empreendidos pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, para transformar este banco no parceiro dos empresários nas suas decisões de investimentos no setor energético devem ser reforçados. Sabemos todos que o problema, no longo prazo, só será resolvido com o aumento dos investimentos públicos e privados em geração de energia.
Nós, empresários, podemos e devemos fazer muito mais do que produzir e conservar energia, mas para isto precisamos ter espaço e representatividade junto ao governo federal. É imperativo uma participação mais efetiva do setor empresarial e da sociedade no Conselho Nacional de Política Energética e no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico. Hoje não há representação da indústria no Comitê de Monitoramento e a presença da sociedade civil no Conselho de Política Energética está limitada a dois integrantes, enquanto os demais membros são todos do governo federal.
Em uma visão de longo prazo, é fundamental aperfeiçoar a governança desse setor e isto requer uma melhor utilização dos fóruns de planejamento e acompanhamento. No nosso entendimento, é exatamente neste ponto que a iniciativa privada pode fornecer uma importante contribuição ao País. Sugerimos à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, diretamente ligada ao tema, que avalie a sugestão da constituição de um comitê consultivo de empresários para acompanhar o setor de energia.
Os cenários energéticos brasileiros estão requerendo a colaboração de todos. O Brasil tem todas as condições naturais, competência técnica e capacidade empresarial para vencer este desafio. Nós queremos ajudar o País a se livrar do fantasma do racionamento e a dispor de energia para que possamos crescer a taxas elevadas, como ocorre em outros países emergentes. E isto não é um sonho impossível.
Fonte:Gazeta Mercantil, adaptado pelo Portal PCH